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QUIZILA DO ÓDIO [Texto para o Mural: Vidas Negras Importam]

Muita dor marcou a história de negros e negras sequestrados de África para a América, sobretudo diante de todas as atrocidades possíveis a quais estes e estas foram submetidos. Em contrapartida, de cada experiência de dor surgiram respostas de resistência que tornaram possíveis a sobrevivência e a existência dos povos negros nas atualidades, senão pela presença física, pelo menos através da memória de suas histórias, pensando nos povos que escolheram a morte a uma vida de opressão – também um ato de resistência. E é da necessidade de resistir que se erguem os quilombos de afeto por entre a gente: uma promessa de que, através da criação e/ou fortalecimento de laços entre a população negra, se alcance a perpetuação de uma história e uma herança cultural e, sobretudo, espaços físicos e/ou mentais de cura.          Partindo do conhecimento sobre quilombo por si mesmo enquanto um lugar de encontro, (re)união e acolhimento de corpos negros em situaçã...

ENTRE O SOM E O SILÊNCIO [Texto para o Mural: Vidas Negras Importam]

O som e o silêncio estão ligados em uma linha tão tênue quando falamos de música erudita que um não existe sem o outro. Assim, nesse espaço eles se complementam, para que sinfonias, óperas e recitais nasçam. Porém, essa ligação não justa quando falamos em relação a quem sempre ocupou e produziu nesse espaço e as pessoas que historicamente o tiveram negado. Uma vez quando perguntada sobre a importância de participar de um coro erudito, fui invadida por uma barulhenta onda sonora, eu me sentir resistência. Naquele momento só conseguía pensar em Scott Joplin(1868-1917), um compositor e pianista norte-americano que foi muito importante para a história dos negros na música. Scott sendo da primeira geração pós-escravidão, teve muita dificuldade de colocar o seu trabalho de maior sucesso nos palcos: a Ópera Treemonisha (1910), peça que atravessa a sua história, e consequentemente a dos negros norte-americanos. Silenciado, não teve reconhecimento do seu trabalho em vida, montando a ópera u...

QUE BOM QUE EU TE ENCONTREI AQUI! [Texto para o Mural "Corpos dissidentes: literatura, dança e teatro"]

QUE BOM QUE EU TE ENCONTREI AQUI!   Ingrid Limaverde   Escrevo a partir de um silêncio descolado. Silêncio com horas marcadas no ano de 2012 e nos seguintes. Ele que ,  vagarosamente ,  chegou em minha epiderme em um dia de segunda-feira do mês de janeiro e chega todos os dias em que me vejo de fora. E ontem, quando chegou, antes que sozinho escapulisse completamente de meu corpo, chorei. As águas salgadas de dentro, as águas salgadas de silêncio, me trouxeram uma certeza. Ao ter em minhas mãos um livro que mais parecia ter sido escrito por outras tantas, tive a certeza de que o meu amor por um corpo, por uma existência quase-semelhante, de um prazer em comum, não estava e nunca poderia estar guardado. Quando me vi, escrita em linhas que contavam a história de tantas outras que amam outras e aquelas e estas, senti meu corpo parecer presente, vivo. Eu existo! Es t e amor existe! Está aqui revelado de tantas maneiras diferentes, exposto em suas complexidades ...

INHAIIIIIIIIIIIII [Texto para o Mural "Corpos dissidentes: literatura, dança e teatro"]

INHAIIIIIIIIIIIII Hilário Mariano dos Santos Zeferino “Ai meu Deus, o que que é isso quéssas bixa tão fazendo? Pra todo lado que eu olho, tão todes enviadescendo”. Linn da Quebrada (2017) (Extremamente) Dentro do meio musical brasileiro, a variedade de performances de artistas configura uma constelação de possibilidades de representações, tanto no que podemos chamar de “velha guarda”, quanto na “jovem guarda” nos vários gêneros musicais no país. Historicamente, cantores e cantoras geraram (e vêm gerando) a pergunta que epigrafa esse texto, trecho extraído da música “Enviadescer”, de Linn da Quebrada (2017). Tal questionamento, presumimos, é oriundo da impressionante característica versátil, tangenciadora e de caráter vanguardista e relimitrofizador das pessoas cantoras. As performances de artistas tais como Ney Matogrosso ou Liniker, através de seus potenciais políticos, desaquendam ideias que se pretendem monolíticas e, através da articulação coletiva, tais artistas col...

Escritas negro-femininas: Lívia Natália

Por Cely Pereira [...] A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher de nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tônico pacientemente cose a rede. (EVARISTO, Conceição. Cadernos Negros, v. 19) Abro esse escrito com um questionamento dado por Audre Lorde em seu texto “A transformação do silêncio em linguagem e ação”: “Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer? Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio?”. Ser escritora negra no Brasil é um desafio. Tanto por ser mulher, tanto por ser negra. Esses recortes que são historicamente silenciados e negligenciados, hoje, são de extrema potência para as produções e funcionamentos das engrenagens da sociedade. Não só hoje, como sempre! As mulheres negras foram e são protagonistas de suas histórias desde sempre! Verbalizar as angústias, os medos, os receios e os desejos é um ato polític...

Escrita negro-feminina: um fazer de (r)existência.

Por Alanne Maria Conceição Evaristo, em uma reflexão para a revista Scripta , afirma que o texto não é fruto de uma geração espontânea. Ao contrário, o texto tem uma autoria, um sujeito, uma subjetividade própria. Ora, pensar a escrita negro-feminina é pensar a subjetividade que a constrói, mas sem se furtar de observar como a exterioridade – em sua força e multiplicidade – tenta forjar esse traço através de teorias racistas, misóginas e capitalistas. Pior, uma exterioridade que abraça o universal, traduzindo-se para as mulheres negras e sua produção literária como a negação da existência. Então, nesse contexto, a escrita negro-feminina trata e é sobre existência. Não apenas a existência literal, do ato de escrever, de tecer o texto literário. Mas, sobretudo, no sentido e no direito de pensar a literatura enquanto estética, documento, memória, filosofia, arte e, por último, mas não só, tampouco menos importante, pensar a literatura juntamente com os elementos intrínsecos à existên...

Literatura surda e a construção da identidade surda

Por Cristovão Mascarenhas         A noção de literatura surda começou a circular em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, principalmente onde havia escola de surdos. Em 1864, foi fundada a Universidade Gallaudete, em Washington. E, a partir daí, os sujeitos surdos e acadêmicos da área foram formando um conceito de literatura surda, transmitindo-o para a comunidade surda local e integrando-o à cultura e construção da identidade surda desse povo. Nesse sentido, o objetivo deste texto é refletir, ainda que de forma superficial, a história da literatura surda, observando as manifestações das produções culturais dos surdos em obras que são contadas em Libras.        A literatura surda pode ser compreendida como pertencente ao que se identifica como cultura surda. Segundo Wrigley (1996), apud Mourão (2011), o traço significante que define a cultura surda é o uso de uma língua de sinais, ou seja, uma língua compartilhada em uma comunidade ...