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QUE BOM QUE EU TE ENCONTREI AQUI! [Texto para o Mural "Corpos dissidentes: literatura, dança e teatro"]

QUE BOM QUE EU TE ENCONTREI AQUI!   Ingrid Limaverde   Escrevo a partir de um silêncio descolado. Silêncio com horas marcadas no ano de 2012 e nos seguintes. Ele que ,  vagarosamente ,  chegou em minha epiderme em um dia de segunda-feira do mês de janeiro e chega todos os dias em que me vejo de fora. E ontem, quando chegou, antes que sozinho escapulisse completamente de meu corpo, chorei. As águas salgadas de dentro, as águas salgadas de silêncio, me trouxeram uma certeza. Ao ter em minhas mãos um livro que mais parecia ter sido escrito por outras tantas, tive a certeza de que o meu amor por um corpo, por uma existência quase-semelhante, de um prazer em comum, não estava e nunca poderia estar guardado. Quando me vi, escrita em linhas que contavam a história de tantas outras que amam outras e aquelas e estas, senti meu corpo parecer presente, vivo. Eu existo! Es t e amor existe! Está aqui revelado de tantas maneiras diferentes, exposto em suas complexidades ...

INHAIIIIIIIIIIIII [Texto para o Mural "Corpos dissidentes: literatura, dança e teatro"]

INHAIIIIIIIIIIIII Hilário Mariano dos Santos Zeferino “Ai meu Deus, o que que é isso quéssas bixa tão fazendo? Pra todo lado que eu olho, tão todes enviadescendo”. Linn da Quebrada (2017) (Extremamente) Dentro do meio musical brasileiro, a variedade de performances de artistas configura uma constelação de possibilidades de representações, tanto no que podemos chamar de “velha guarda”, quanto na “jovem guarda” nos vários gêneros musicais no país. Historicamente, cantores e cantoras geraram (e vêm gerando) a pergunta que epigrafa esse texto, trecho extraído da música “Enviadescer”, de Linn da Quebrada (2017). Tal questionamento, presumimos, é oriundo da impressionante característica versátil, tangenciadora e de caráter vanguardista e relimitrofizador das pessoas cantoras. As performances de artistas tais como Ney Matogrosso ou Liniker, através de seus potenciais políticos, desaquendam ideias que se pretendem monolíticas e, através da articulação coletiva, tais artistas col...

Escritas negro-femininas: Lívia Natália

Por Cely Pereira [...] A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher de nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tônico pacientemente cose a rede. (EVARISTO, Conceição. Cadernos Negros, v. 19) Abro esse escrito com um questionamento dado por Audre Lorde em seu texto “A transformação do silêncio em linguagem e ação”: “Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer? Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio?”. Ser escritora negra no Brasil é um desafio. Tanto por ser mulher, tanto por ser negra. Esses recortes que são historicamente silenciados e negligenciados, hoje, são de extrema potência para as produções e funcionamentos das engrenagens da sociedade. Não só hoje, como sempre! As mulheres negras foram e são protagonistas de suas histórias desde sempre! Verbalizar as angústias, os medos, os receios e os desejos é um ato polític...

Escrita negro-feminina: um fazer de (r)existência.

Por Alanne Maria Conceição Evaristo, em uma reflexão para a revista Scripta , afirma que o texto não é fruto de uma geração espontânea. Ao contrário, o texto tem uma autoria, um sujeito, uma subjetividade própria. Ora, pensar a escrita negro-feminina é pensar a subjetividade que a constrói, mas sem se furtar de observar como a exterioridade – em sua força e multiplicidade – tenta forjar esse traço através de teorias racistas, misóginas e capitalistas. Pior, uma exterioridade que abraça o universal, traduzindo-se para as mulheres negras e sua produção literária como a negação da existência. Então, nesse contexto, a escrita negro-feminina trata e é sobre existência. Não apenas a existência literal, do ato de escrever, de tecer o texto literário. Mas, sobretudo, no sentido e no direito de pensar a literatura enquanto estética, documento, memória, filosofia, arte e, por último, mas não só, tampouco menos importante, pensar a literatura juntamente com os elementos intrínsecos à existên...

Literatura surda e a construção da identidade surda

Por Cristovão Mascarenhas         A noção de literatura surda começou a circular em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, principalmente onde havia escola de surdos. Em 1864, foi fundada a Universidade Gallaudete, em Washington. E, a partir daí, os sujeitos surdos e acadêmicos da área foram formando um conceito de literatura surda, transmitindo-o para a comunidade surda local e integrando-o à cultura e construção da identidade surda desse povo. Nesse sentido, o objetivo deste texto é refletir, ainda que de forma superficial, a história da literatura surda, observando as manifestações das produções culturais dos surdos em obras que são contadas em Libras.        A literatura surda pode ser compreendida como pertencente ao que se identifica como cultura surda. Segundo Wrigley (1996), apud Mourão (2011), o traço significante que define a cultura surda é o uso de uma língua de sinais, ou seja, uma língua compartilhada em uma comunidade ...

Aspectos Gramaticais da Língua de Sinais Brasileira

Por Mariana Rios         A surdez foi, por muitos, encarada com maus olhos durante séculos de história que se prolongaram numa perspectiva ignorante e preconceituosa. Os surdos, por muito tempo, foram excluídos, sua cultura foi marginalizada e suas línguas, realizadas na modalidade visual-espacial, foram desconsideradas. Após anos de luta contra a discriminação e a opressão ouvintista, felizmente, a comunidade surda tem conquistado cada vez mais espaço, devido reconhecimento e respeito.     Contudo, muito ainda é desconhecido por grande parte da população. Um dos principais pontos de nebulosidade sobre o assunto se dá sobre a Língua de Sinais Brasileira, a Libras. A língua é, inclusive, resguardada pela Lei nº 10.436, que a reconhece como uma “forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria , constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comun...

Curiosidades sobre Libras e seus registros gráficos

Por Paula Fernandes         “Quantas línguas oficiais tem o Brasil?”, “Qual a língua falada pelos surdos?”, “Em qual língua os surdos escrevem?”, “Ouvi falar em escola bilíngue para surdos... É por que eles aprendem a falar o português?”. São muitas as perguntas para as quais, infelizmente, não sabemos a resposta, seja por falta de acesso à informação ou pelo simples desinteresse, uma vez que, para muitos de nós, o surdo é “o outro”, é “o resto”.         Resposta da primeira pergunta: no Brasil, além do português como língua oficial, há também a Língua Brasileira de Sinais (Libras), que é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão entre as comunidades de pessoas surdas do país, o que garante a inclusão da Libras no sistema educacional brasileiro. Além delas, alguns munícipios oficializaram outras línguas, tais como o   nheengatu e o  tukano .        No que concerne à segunda questão, a língua of...

Novembro 2017 - LIBRAS

        Todo mês, o PET-Letras exibe em seu mural, localizado na parede entre o térreo e o primeiro andar do Instituto de Letras, textos escritos pelos seus petianos referentes ao tema escolhido para o mês. Da leitura e estudo de obras literárias à reflexão sobre temas tratados pela linguística, esses textos são frutos das pesquisas e discussões realizadas durante as reuniões do PET, visando ao crescimento intelectual dos petian_s e, com a publicação dos textos, contribuição para o ambiente acadêmico. Em novembro de 2017 discutimos sobre a Língua de Sinais Brasileira [LIBRAS]. Os textos foram escritos pelos petian_s Cristovão Mascarenhas, Mariana Rios e Paula Fernandes.   Curiosidades sobre Libras e seus registros gráficos Aspectos Gramaticais da Língua de Sinais Brasileira Literatura surda e a construção da identidade surda  

Literatura infantil: a construção de identidades em O menino quebrincava de ser, de Georgina Martins

Cristovão Mascarenhas A escola, os professores e a família constituem-se como importantes pontes mediadoras da produção do conhecimento de mundo para as crianças. Partindo da ideia de que essa proposição seja verdadeira, é necessário atentarmos para o modo como definimos conceitos, ideologias e tendências para, dessa forma, não reproduzirmos verdades absolutas e fixas. Acreditamos que a literatura funciona como um espaço difusor do encontro de identidades, um mecanismo capaz de mostrar que existem diferentes possibilidades e que um indivíduo, por apresentar gostos, práticas e vontades diferentes, continua sendo digno de respeito. Nesse texto, proponho discutir como a ideia da sexualidade está sendo concebida na literatura infantil e juvenil, mais precisamente, no livro O menino que brincava de ser , de Georgina da Costa Martins. A partir de uma leitura a contrapelo da história, procuro observar de que forma se constrói a identidade do personagem principal e as incongruências ocorrida...

“Isso é pra criança?!”

Mariana Rios Desde a sua estreia, em 2010, o desenho Hora de Aventura alcançou grande popularidade, sendo bem avaliado pela crítica e pelo público. Mas que público é esse? A história de Finn, o humano, e seu amigo Jake, o cão, parece ser mais uma daquelas inquietantes obras que levam grande parte das pessoas à frequente afirmação: “isso não é para crianças”. No Brasil, a classificação indicativa para a maioria dos episódios do desenho é de 12 anos, idade que, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), é o marco final do status “criança”. Contudo, Hora de Aventura é, indiscutivelmente, um sucesso que agrada o público infantil, bem como o juvenil e o adulto. Uma simples verificação mercadológica pode reforçar o fato: há, nas lojas, todo tipo de merchandising e produtos disponíveis – além de jogos eletrônicos, brinquedos e produtos para casa, são oferecidas roupas temáticas para todas as idades. A popularidade entre crianças, no entanto, é mais evidenciada, nã...