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Literatura infantil: a construção de identidades em O menino quebrincava de ser, de Georgina Martins

Cristovão Mascarenhas A escola, os professores e a família constituem-se como importantes pontes mediadoras da produção do conhecimento de mundo para as crianças. Partindo da ideia de que essa proposição seja verdadeira, é necessário atentarmos para o modo como definimos conceitos, ideologias e tendências para, dessa forma, não reproduzirmos verdades absolutas e fixas. Acreditamos que a literatura funciona como um espaço difusor do encontro de identidades, um mecanismo capaz de mostrar que existem diferentes possibilidades e que um indivíduo, por apresentar gostos, práticas e vontades diferentes, continua sendo digno de respeito. Nesse texto, proponho discutir como a ideia da sexualidade está sendo concebida na literatura infantil e juvenil, mais precisamente, no livro O menino que brincava de ser , de Georgina da Costa Martins. A partir de uma leitura a contrapelo da história, procuro observar de que forma se constrói a identidade do personagem principal e as incongruências ocorrida...

“Isso é pra criança?!”

Mariana Rios Desde a sua estreia, em 2010, o desenho Hora de Aventura alcançou grande popularidade, sendo bem avaliado pela crítica e pelo público. Mas que público é esse? A história de Finn, o humano, e seu amigo Jake, o cão, parece ser mais uma daquelas inquietantes obras que levam grande parte das pessoas à frequente afirmação: “isso não é para crianças”. No Brasil, a classificação indicativa para a maioria dos episódios do desenho é de 12 anos, idade que, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), é o marco final do status “criança”. Contudo, Hora de Aventura é, indiscutivelmente, um sucesso que agrada o público infantil, bem como o juvenil e o adulto. Uma simples verificação mercadológica pode reforçar o fato: há, nas lojas, todo tipo de merchandising e produtos disponíveis – além de jogos eletrônicos, brinquedos e produtos para casa, são oferecidas roupas temáticas para todas as idades. A popularidade entre crianças, no entanto, é mais evidenciada, nã...

Escrever com a voz

Ana Clara de Carvalho A literatura, em seu sentido amplo, compreende interseções e modos alternativos de pensar a realidade. Quando se trata de tradição da oralidade, considero pensar num modo de escrita com a voz, as ordens e as desordens que dominam a amplitude da linguagem. É por intermédio das histórias contadas por minha avó materna, Luiza Santiago, que escrevo aqui como forma de agradecimento por poder conhecer tanto do mundo numa linguagem única que é a dela. Em paralelo, procuro também discorrer um pouco sobre como a tradição do narrar mudou com o passar dos tempos e se insere numa união entre ficções e realidades. A tradição de contar histórias é desconexa e transmite uma repetição que, muitas vezes, não conseguem ser conclusas. Há algum tempo venho gravando em áudio as histórias que minha avó conta. Ela não entende muito de tecnologias e diz que não largamos “esse negócio que vocês ficam o tempo todo ‘assim’– e aponta com as duas mãos em direção aos olhos”, esse negócio é o c...

Literatura infantil e juvenil: considerações da narrativa nos games

Antonio Caetano As discussões acerca da literatura, do que torna um texto literário e da suposta qualidade desse texto são velhas conhecidas dos estudos literários e vêm sendo repetidamente trazidas à tona. As análises, as teorias e as classificações que envolvem textos literários, gêneros literários e narrativas sempre se encontraram em constante mudança, principalmente na contemporaneidade. Sabemos, por exemplo, que a imagem comumente espalhada e enraizada na mente das pessoas sobre a literatura está intimamente ligada a livros antigos, estantes imponentes encontradas em bibliotecas e universidades conceituadas, bem como a longos poemas e aos romances clássicos atemporais. Entretanto, nunca se entrou em um consenso em relação ao que seria o verdadeiro conceito de literatura; essa dificuldade, portanto, persiste em outras áreas. Concordo com Derrida quando ele diz: Não há essência assegurada ou existência da literatura. Se você analisa todos os elementos de um trabalho literário, nunc...

Tropicália e Cinema Novo: produções e novas criações (identitárias)

Por Cely Pereira e Gabriel Santiago “Desculpe-me, camarada, atrapalhá-lo em sua luta de classes tão importante, mas para qual lado fica o cinema político?”, questiona a atriz alemã Anne Wiazemsky, em francês, a um lusófono Glauber Rocha parado em pose dramática à beira de uma estrada europeia campestre. Como resposta, o cineasta, em português, sem rodeios e intensificando o caos à la Babel, indica, literalmente aos gestos, o caminho para um cinema situado do outro lado do atlântico; cinema esse “perigoso” e, claro, “divino, maravilhoso”. Mudança brusca: o som do ambiente é substituído, em rasgo auditivo, por uma Gal Costa em plenos pulmões, interpretando, sob força do refrão, a canção “Divino Maravilhoso”, composta por Caetano Veloso. Corte. Vento do Leste, filme de 1970, dirigido por Jean-Luc Godard e por diversos colaboradores, a partir da participação de Glauber na cena transcrita, propõe um estudo das possibilidades de  articulação do viés estético cinematográfico “terceir...

A Reinvenção da Tropicália

Por Laercio Morais Santos No caminho coercitivo de definir um vocábulo, nos deparamos com a Tropicália, uma verdadeira mobilização de sentidos para além das prescrições. À medida que ela promove a ruptura com o conservadorismo, assume o caráter transgressor que lhe é próprio. Defini-la nos coloca em um lugar perigoso; vamos rememorá-la como um movimento político, artístico e social que, apesar de sua pouca duração (1967-1968), vê muitos dos seus manifestos reverberarem até hoje. A coerção que nos leva ao campo das definições, vê-se atravessada por algo muito pior: o silenciamento, tentativa abrupta de cercear a liberdade de expressão. Orlandi (1999, p. 83) aponta que, em todo caso, haverá silêncio acompanhado as palavras, visto que as relações de poder em uma sociedade como a nossa produzem sempre a censura. Essa realidade materializa-se na insistente tentativa da Tropicália de romper com as amarras do silêncio e promover a metacrítica a respeito de concepções artísticas. Ao lo...

Tropicália: a instalação e a Nova Objetividade Brasileira

Leticia Carvalho e Gabriel Amorim Tropicália, nome atribuído ao movimento cultural de ruptura que ocorreu no final dos anos 1960, é muito associado ao emblemático disco Tropicália ou Panis et circensis , lançado por figuras marcantes do tropicalismo: Caetano Veloso, Os Mutantes, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão e Tom Zé, ainda com os poetas Capinam e Torquato Neto, e o maestro Rogério Duprat. No entanto, antes do lançamento do disco e da “Geléia geral” do Panis et circensis , Hélio Oiticica, artista plástico e anarquista, expôs a obra “Tropicália”, em 1967, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) junto com outras (os) artistas, costurando o que foi chamado de “Nova Objetividade Brasileira”. A mostra coletiva foi organizada por críticos e artistas, como o próprio Oiticica, Lygia Clark, Carlos Vergara, Lygia Pape, Mário Pedrosa, entre outras(os) participantes da cena artística do eixo Sul-Sudeste, principalmente. No presente texto, nos atentaremos principalmente aos traba...